
A velhinha muito simpática, D. Efigênia, 79 anos, fora internada na Clínica de Ortopedia, por fratura de fêmur. Bem acolhida, bem tratada foi se recuperando lentamente; tratamento longo, mais de 30 dias. Aos poucos foi conquistando a simpatia de todos no andar.
Sua dentadura, à noite, ela deixava enroladinha num guardanapo na mesinha de cabeceira. Naquele dia fatídico, ao descer cedo para um exame de R-X, esqueceu de colocá-la. A moça da limpadora, ao fazer a faxina matinal, deu com o embrulhinho e pensando tratar-se de restos de qualquer coisa, mais que depressa, vupt, no saco de lixo. E lá se foi a alegria de D. Efigênia, que esqueci de dizer, sempre foi muito risonha.
Ao retomar, à primeira refeição, a velhinha sentiu-se desguarnecida. E agora ! Procura daquí, procura dali, nas gavetinhas, em baixo da mesa, no guarda roupas, sob o colchão e tudo em vão. Até a vizinha de cama;sentindo-se um tanto quanto suspeita, ajudou a procurar. Nada.
Chamada a Enfermeira Chefe, instalou-se definitivamente o problema.
D. Efigênia, às vésperas de sua alta, não poderia sair, nem sairia, como ela mesmo declarou em alto e bom som, sem sua preciosa dentadura.
Comunicado o fato, por escrito, a instância superior e competente, começou a dança da papelada. Cada chefe, chefete, assistente, encarregado e até diretor deu seu abalizado e brilhante parecer: "proceder conforme a praxe", "consultar o setor especializado", "aqui por engano", "enviar ao SAME", "consultar o Departamento Jurídico", etc.etc. e outras pérolas da burocratice endêmica. Ainda bem que não mandaram a baboseira para o Serviço de Farmácia, tido e havido como um modelo de eficiência.
O memorando inicial já virara um processo; como não tinha destino certo, acabou chegando ao setor de Conservação e Reparos. O Encarregado, antigo de casa, sentindo o drama geral, aproveitou a garatuja dos pareceres e saiu-se com essa: "é conserto de dentadura ou fechadura"? E voltou tudo à estaca zero.
A paciente com alta anunciada mas não executada estava ansiosa; a família toda em pé de guerra, não podia financiar outra dentadura e queria a velhina fora do hospital, temerosa de uma tão mal falada infecção hospitalar. Nessa altura dos acontecimentos, toda a unidade já conhecia D.Efigênia. A turma da terceira idade se reunira e até faixas e cartazes foram colocados nos corredores. "ABAIXO A DITADURA, ELA NÀO SAI SEM DENTADURA". "FORA A DIRETORA, RACISTA E OPRESSORA". "D. EFIGÊNIA PARA SUPERINTENDENTE", aproveitaram a deixa, os inimigos políticos da administração.
Agora, o processo já alentado, seguiu para a Seção de Compras em ritmo de urgência. Como manda a Lei, foi aberta uma licitação pública sem muitas especificações; dentadura branca, uma, para mulher, idade 79 anos. Publicado em Diário Oficial, transcorrido 30 dias nenhuma proposta apareceu; talvez pela pouca quantidade do material; mesmo superfaturando ninguém se interessou.
E a paciente esperando ... Nesse período só comendo sopinhas e outros semisólidos, pois segundo a atendente ela estava "de dieta".
Considerado "deserto" o processo, como diz o jargão burocrático, cogitou-se de uma compra por pronto pagamento, em caráter urgentíssimo, antes que a imprensa noticiasse o inusitado e a Câmara de Vereadores de São Paulo votasse um projeto de lei outorgando a D. Efigênia, a medalha Tiradentes. Obviamente o pronto pagamento não funcionou. Os fornecedores credenciados deixaram de participar pois a compra era fora do comum. O problema tornou-se quase insolúvel.
Às pressas, foi convocado o Conselho de Administração que há muito não se reunia e a portas fechadas, em sessão secreta, discutiram o assunto. Soube-se posteriormente que o bate boca foi longo. Até palavrão saiu...
Quem furtou a dentadura? Por que o Superintendente não foi logo avisado? Onde andava a Diretora? Por que não enviaram o ofício à Farmácia? Talvez até resolvessem e não estaríamos nessa enrascada. E os dentistas, não foram consultados? Será que o Governador soube? Ai de nós...
Na iminência do caso chegar ao conhecimento da grande imprensa e a notícia divulgada internacionalmente, resolveu a superintendência nomear uma comissão de alto nível, composta de sete membros, todos notáveis (professores doutores, doutores professores, especialistas, consultores, etc.), para, num esforço conjunto e com prioridade total, equacionar e resolver o dilema, considerado por todos como o "bug do milênio", da instituição.
A tal Comissão, já denominada CBM, dotada de amplos poderes, teria 15 dias prorrogáveis por mais 7, para uma decisão final. Sob pena de rolarem cabeças.
É lícito dizer que o tal grupo, dispunha de verba para pagamento de horas extras, recebia diária de locomoção, verba de representação e tudo mais que uma equipe desse porte exige.
A família, nessa altura, mais preocupada com a Comissão do que com a infecção, resolveu agir. Levou ao hospital, através de um bondoso amigo, um protético que fez "in loco" um molde, e em poucos dias, D.Efigênia conseguiu sair, saudável e risonha com sua nova e brilhante dentadura, para felicidade dos amigos e alívio geral da comunidade. Soube-se depois que quem não gostou foi a CBM que já tinha recebido, por adiantamento, boa parte da verba, e já marcara passagem aérea de todos os membros para Natal, onde procederiam investigações, tendo em vista que o avô de D. Efigênia era rio -grandense do norte e usara dentadura por muito tempo. Mas isso é outra história e caberá ao Ministério Público apurar as responsabilidades.
Ri melhor quem ri por último
Amilcar Carleial




